Firmamente te abri a porta deixando-te passar. Com um sorriso dizes boa noite ao empregado que nos acompanha a nossa mesa. Tu sentas-te, eu sento-me. Cruzando as pernas e te debruçando ligeiramente na mesa perguntas-me como estou, deixando-me prever pelo timbre da tua voz onde iríamos terminar.
As notas saíam do piano impondo o ritmo da nossa conversa; de forma fluida, como sempre, te vou contando as últimas aventuras, novidades e projectos. Dizes que estou a ir pelo caminho certo (estarei mesmo?) e apoias-me em cada tomada de decisão. Agradeço e dou-te a mão!
Observo-te.
Com um chardonnay na mesa olho para as tuas pernas enquanto te diriges à casa de banho. O teu caminhar certo e preciso, como se tivesse uma fórmula matemática precisa, o tom da tua pele, como se tivesse sido banhado no leito dos deuses, os teus longos e suaves cabelos macios, que tanto gosto de cheirar; deixam em extâse todo os poros do meu corpo. Retornas com esse sorriso, como se soubesses o que tinha pensado segundos antes.
Coro, solto uma gargalhada e olho-te.
Passeamos.
O rio à nossa direita se encontrava, o mar a um palmo de distância.
Tinhas frio e tirei o casaco. Minutos que pareceram horas enquanto falávamos; cada pequeno susurro ao ouvido arrepiava-me provocando-me um instante desejo de te agarrar naquele momento. A Lua encontrava-se semi-cheia, intensa e focada em nós tendo como pano de fundo o cais deixando tudo perfeito.
Tua ou minha?
Tua, a minha encontra-se ocupada e desarrumada; não te quiz lá levar.
Após termos chegado, quando entrámos, olhei em redor e pensei quão já tinha feito tempo desde que não entrava naquela casa. Perdi a força; fui bombardeado por recordações que não queria recordar até me teres pedido para me sentar, enquanto ligávas a aparelhagem carregando no play.
Ah, o momento chill out até ao momento em que te acariciava os cabelos.
Beijaste-me, mesmo após o que tinhamos falado, e disseste-me para não pensar em mais nada. De forma subtil, mas objectiva, recordaste-nos as premissas e quiseste retornar no tempo. Sorriste outra vez mordendo o lábio tranquilamente. Não resisti agora em beijar-te. Beijei-te como se fosse a última vez, perdida e descontroladamente, percorremos cada centímetro do teu corpo como se não houvesse mais vez até o dia nascer.
Acordei contigo nos meus braços, mais frágil, com um sorriso inocente como não vira na noite anterior. Estavas confiante, segura de ti como se soubesses cada passo que dar; e ali na mais pura das tuas formas, via-te insegura, agarrando-me como se acreditasses que poderíamos dar o próximo passo, mesmo sabendo que não o daremos.
Acordei, vesti-me e preparei-te o pequeno almoço equilibrado e sereno que tanto aprecias.
Era dia 14.
cousa perdida algures no espaço e no tempo
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